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Mude

Essa é uma das histórias mais absurdas de que já tomei conhecimento até agora. Recebi e-mail da minha leitora Nancy há alguns meses pedindo que publicasse esse texto. No entanto, já havia recebido o seguinte e-mail do próprio autor, pedindo esclarecimento neste blog. Acabei ficando muito tempo afastada de minhas atividades on-line e adiei a postagem, mas não poderia deixar de divulgar essa história aqui (em homenagem também à Flávia, que comentou de sua frustração pela falta de atualização do Autor Desconhecido).

Confesso que, ao saber dessa história, cogitei a hipótese de os herdeiros da Clarice Lispector serem tão ignorantes que não conhecem o trabalho da Clarice. Não têm como saber o que é ou não dela porque nunca leram um livro na vida (argumento derrubado por um de meus neurônios, que me lembrou de que eles devem saber o que a Clarice tem registrado como dela, nem que seja pelo título). Existe a possibilidade de que tenham agido como falsos espertos, imaginando que o texto tenha sido escrito pela entidade sem rosto e sem nome conhecida como Autor Desconhecido e que ele – além de tudo – tem um sério problema de memória e se esquece rapidamente de tudo o que escreve (afinal de contas, ele escreve tanto!). Então, não haveria o menor problema, nem conseqüência alguma em aceitar dinheiro por uma obra que não lhes pertencia, como se pertencesse.

Seja como for, é um absurdo sem tamanho que deve, sim, ser exposto ao público, o máximo possível, para que se tenha noção da dimensão do problema e que a irresponsabilidade não é apenas de leitores leigos e internautas, mas de jornalistas, publicitários…gente que deveria ser melhor informada, mais consciente e responsável com o trabalho alheio. Conhecidos como “formadores de opinião”, não lêem, não se informam, não têm conteúdo suficiente para repassar ao público (que também não lê, não se informa….vixe, melhor nem continuar o raciocínio…) e acabam agindo como agentes de desinformação em larga escala. Dá medo.

Segue o e-mail do autor, o link para o site no qual há a explicação de toda a história, e o texto original.

Por um erro da Agência Leo Burnett, meu poema MUDE foi utilizado num comercial da Fiat, e teve sua autoria atribuída, erradamente, a Clarice Lispector.

Os herdeiros de Clarice receberam quarenta mil dólares, ilicitamente, pelo “licenciamento” de uma obra alheia (no caso, minha).

Sentença transitada em julgado deu ganho de causa a mim, em Ação Cautelar.

Os herdeiros recusam-se a devolver o dinheiro, e sequer se pronunciam em público sobre o caso.

Detalhes em http://desafiat.weblogger.com.br

Abraços, flores, estrelas..

Edson Marques.


Mude
Edson Marques.

Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama.
Depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais,
leia outros livros,
Viva outros romances!
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.
Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado,
outra marca de sabonete,
outro creme dental.
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.
Troque de bolsa,
de carteira,
de malas.
Troque de carro.
Compre novos óculos,
escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Arrume um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.

Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda! “