Tag Archive: apócrifo

No frigir dos ovos – Na boca do povo

Já tenho a confirmação da autoria deste texto que circula pela web via email com apêndices detestáveis e assinado por…quem? Quem? Quem?…Sim!!! Ele!!! Sempre ele, nosso amável e eternamente altruísta Autor Desconhecido!! Mas não foi ele quem escreveu esse texto, queridos, até porque – você e eu sabemos – ele não existe. Yes, você que está chegando hoje no blog talvez ainda não soubesse e nutrisse a expectativa romântica a respeito da existência de um ser que escreve anonimamente e espalha seus textos pelo mundo pelo simples prazer de ver letras volantes para lá e para cá. Textos legais são obra de mentes legais e é sempre bom conhecê-las, não é mesmo? Neste caso, a mente brilhante por trás do texto atende pelo nome de Claudemir Beneli e o universo agradeceria se os devidos créditos lhe fossem dados.

Note que o larápio que resolveu encaminhar o texto via email o fez de propósito, já que o spam começa com a seguinte declaração:

Encontra-se na internet o seguinte texto relativo à resposta de um internauta para uma pergunta de outro, que indagava:

Alguém sabe me explicar, num português claro e direto, sem figuras de linguagem, o que quer dizer a expressão “no frigir dos ovos“???

Resposta:

Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos.”

Fingindo tratar-se de uma resposta do Yahoo Respostas – ou coisa do gênero (como se fosse corriqueiro tropeçar nesse tipo de qualidade literária por aí), o indivíduo destroçador de textos o toma como domínio público e encaminha (certamente achou que teve uma “grande sacada” ao formular a falsa pergunta). Outros, aqueles que ainda acreditam que não há o menor problema em divulgar textos apócrifos e sem pai nem mãe, reencaminham…

Acho  triste receber um texto brilhante e não poder saber nada a respeito de seu autor…refaço meu apelo de sempre: ou repasse o texto original com a autoria correta (e confirmada) ou controle-se e não repasse. Ajude a acabar com a decapitação de textos, desmembramento de ideias e evaporação de bons escritores na web. Gostou de um texto? Então respeite a mente que o criou.  Segue o link e o texto original (infelizmente, a coluna foi descontinuada, mas felizmente os arquivos continuam lá, com outros textos igualmente brilhantes do autor):


http://www.bonde.com.br/?id_bonde=1-14–1688-20050520&tit=na+boca+do+povo

20/05/2005 — 11h00
Na boca do povo

Claudemir Beneli

As expressões populares que colocam a comida na “ponta da língua” dos brasileiros
Quando comecei com essa coluna, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem idéias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa. E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo as favas.

Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.

Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher lingüiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos.

A quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.

Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese…etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou.

O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco.

A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.

Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.

Acompanhamentos

Como vimos, além de rica em cores e sabores a culinária brasileira também oferece ótimos eufemismos e deliciosas metáforas. Desempenhando uma função social que vai muito além da nutrição, a comida, no Brasil, está relacionada a diversas manifestações da cultura popular, entre elas a linguagem.

Dessa interação nasceram várias expressões famosas e corriqueiras, verdadeiras “pérolas” do colóquio nacional. Saber a origem de algumas delas pode ser tão prazeroso quanto provar um bom prato. O difícil é conseguir provar a tal origem, pois quando se trata de expressões populares cada um tem sua própria versão.

As descritas abaixo são as minhas versões, às vezes, inspiradas na de outros, já que andei pesquisando um pouco. Não acredite em tudo. Mas, por mais estapafúrdias que pareçam, certas origens podem muito bem ser verdadeiras.

– A carne é fraca – Essa expressão retirada da bíblia representa a dificuldade de se resistir a certas tentações. A gula (pecado ou não) está sempre nos mostrando isso, porque a carne pode até ser fraca, mas grelhadinha no molho de mostarda…hum! Fica divina. “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”. (Mt. 26:41)

– Apressado come cru – Como o microondas e o fast food são invenções recentes, até certo tempo atrás era preciso esperar um pouco mais para a comida ficar pronta, ou então comê-la crua. Nessa época a culinária japonesa ainda não estava na moda, logo comida crua era vista com maus olhos, e a expressão passou a ser usada para significar afobamento, precipitação…etc.

– Arroz de festa – Assim são chamadas aquelas pessoas que não perdem uma festa por nada, tendo ou não sido convidadas pra mesma. A origem dessa expressão talvez advenha do costume de se jogar arroz em recém casados. Mas o mais provável é que ela tenha surgido devido a uma antiga tradição portuguesa. Nas festas e comemorações das tradicionais famílias portuguesas nunca faltava uma sobremesa feita com arroz, leite, açúcar e algumas especiarias (arroz doce) e que era conhecida, na época, como “arroz de festa”.

– Chorar as pitangas – Pitangas são deliciosas frutinhas vermelhas cultivadas e apreciadas em todo o país, principalmente nas regiões norte e nordeste. A palavra pitanga deriva de pyrang, que em tupi guarani significa vermelho. Sendo assim a provável relação da fruta com o pranto vem do fato de os olhos ficarem vermelhos, parecendo duas pitangas, quando se chora muito.

– Comer o pão que o diabo amassou – Significa passar por uma situação difícil, um sofrimento. Imagino que a origem dessa expressão venha do fato de que deve ser, realmente, indigesto engolir um pão amassado (amassar é o mesmo que fazer a massa) pelo capeta. Além da procedência, nada confiável, do produto (se vem do coisa ruim, boa coisa não pode ser) tem grandes chances desse pão vir queimado, já que foi assado no fogo do inferno.

– Dar uma banana – É das poucas expressões que são acompanhadas por um gesto. Aliás, neste caso, o mais provável é que o gesto tenha inspirado a expressão, já que ele existe em vários países como Portugal, Espanha, Itália e Brasil. Em todos esses lugares o gesto significa a mesma coisa: um desabafo ou uma ofensa. Já a alusão à banana é exclusividade tupiniquim e fica por conta da criatividade, tão peculiar ao brasileiro.

– Farinha do mesmo saco – “Homines sunt ejusdem farinae” esta frase em latim (homens da mesma farinha) é a origem dessa expressão, utilizada para generalizar um comportamento reprovável. Como a farinha boa é posta em sacos diferentes da farinha ruim, faz-se essa comparação para insinuar que os bons andam com os bons enquanto os maus preferem os maus.

– Pagar o pato – A expressão deriva de um antigo jogo praticado em Portugal. Amarrava-se um pato a um poste e o jogador (em um cavalo) deveria passar rapidamente e arrancá-lo de uma só vez do poste. Quem perdia era que pagava pelo animal sacrificado, sendo assim passou-se a empregar a expressão para representar situações onde se paga por algo sem obter um benefício em troca.

– Ser de meia tigela – Na época da monarquia portuguesa muitos jovens habitavam os castelos, eles prestavam serviços domésticos à corte e recebiam alimentação e moradia por isso. Entre estes jovens, haviam vários vindos do interior, que pela pouca experiência e origem humilde, eram desprezados pelos veteranos, sendo ironicamente tratados por “fidalgos de meia tigela”, já que embora habitassem o palácio não participavam de rituais importantes da corte. Como em alguns desses ritos quebravam-se tigelas, dizia-se que eles eram de meia tigela porque nunca quebrariam a tigela, privilégio reservado aos nobres.

Bom, essas são algumas das histórias mais interessantes, mas se você se interessou pelo assunto e quer continuar a desvendar a origem das expressões, pode recorrer a sua própria criatividade, a sua avó e as amigas dela do jogo de biriba ou então aos seguintes livros:

– De onde vêm as palavras, Deonísio da Silva (Editora A Girafa, 2004). – Neste livro se encontram milhares de verbetes explicando a origem etimológica de várias palavras e expressões. Mais do que desvendar a origem, Deonísio explica, em alguns casos, a história das palavras e como elas se modificaram desde o seu surgimento.

– Mas será o Benedito?, Mario Prata (Editora Globo, 1996) – Várias histórias criadas pelo autor para explicar a origem de algumas expressões populares faladas por nós estão presentes neste livro. Privilegiando mais o humor que o rigor científico, Mario Prata assume que inventou a maioria dos verbetes sem se preocupar com a verdade histórica. O livro também pode ser encontrado na Internet, no site do autor está disponível uma versão integral do texto, o endereço é: www.marioprataonline.com.br

Claudemir Beneli – Gastronomia e Culinária

Ter ou não ter namorado

Outro clássico, enviado pela leitora Niza:

Esse texto foi publicado em 1984 e circula há anos, inclusive em revistas, jornais e antologias, como sendo de Carlos Drummond de Andrade. Muita gente já sabe que é de Artur da Távola, mas em pleno 2007 o encontrei até mesmo creditado ao Verissimo e ao nosso amigo Desconhecido. As alterações que ainda circulam por aí (inclusive transformando a crônica em poesia, colocando as frases em coluna….argh!!!) são apavorantes. Por que fazem isso com textos inocentes? Alguns acréscimos, alguns cortes, algumas deformações…a maioria dos textos alterados suprimiu a ordem “ENLOU-CRESÇA.” Provavelmente, os Alteradores de Textos Anônimos não entenderam o novo termo.

Artur da Távola reclama, em adendo colado ao texto:


“Não sei mais o que fazer! Aviso às editoras que fazem antologias, que de agora em diante irei à Justiça e as processarei por uso indevido de uma crônica de minha autoria, ‘Ter ou não ter namorado’, publicada em 1984 no Livro ‘Amor A Sim Mesmo’, da Editora Nova Fronteira, como se fosse do grande poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade. Algumas editoras, para aproveitarem-se da justa fama de Drummond não se preocupam de examinar com cuidado e tascam nas antologias essa minha crônica, como dele. É a que se segue, com o título que está aí em cima:”


Aí vai o texto original, postado em seu site :

TER OU NÃO TER NAMORADO
Artur da Távola


Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil.
Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira – d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA.

.

Comentário

Recebi o seguinte comentário:

“Olá, meu nome é Camila, moro na cidade de União da Vitória, interior do Paraná, tenho quinze anos e uma opinião bem crítica com relação ao texto de Willian Ferdnand Shakespeare atibuído à Veronica Shoffstall. Primeiro, a outoria de Shakespeare sobre a verdadeira versão desse texto (que tem como verdadeiro título “Depois de um tempo você aprende”)é simplesmente incontestável, traz todos os tradicionais traços literários que Shakespeare usava em textos de auto- ajuda, quanto a isso não há duvidas.

Segundo, a versão dita distorcida e alongada do texto, fora escrita sem o menor propósito de má-intenção, a mais ou menos um ano atrás, é de minha autoria, e não passou de uma carta que eu escrevi a uma grande amiga para homenagear uma data especial. Como ele foi parar aí e quem o encaminhou, eu não tenho a menor idéia! Porém é verdade sim que o texto não passa de uma coletânea, eu apenas fiz uma pequena reunião do que eu mais gostava sobre Paulo Coelho, Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa e outros que a fraca memória não me permite citar agora, com base no texto de Shakespeare, mais alguns resquícios completamente originais de lições de vida,e ficou assim.

A quem achar que sou uma desocupada tentando fazer uma brincadeirinha de mau gosto que me contate para tirar a dúvida, eu aponto e comprovo cada uma das citações que fiz acima. Quanto ao fato da versão do texto que eu redigi ter sido taxada de praga, desgraça, dessas que destroem civilizações – meu Deus, quanto exagero!!! – eu acho que quem fez o comentário deveria rever os seus conceitos. Na minha opinião, não existe presente mais profundamente tocante e precioso que se dê a um amigo especial do que qualquer simples pedaço de papel com palavras não escritas, e sim, desenhadas pelo coraçaõ…”
Camila de Lima | 06.10.06 – 1:07 pm IP: 201.35.54.3


Respondi à moça por email:


Camila, Shakespeare nunca escreveu textos de auto-ajuda, se você já leu algum texto de auto-ajuda creditado a Shakespeare, pode ter certeza de que não é dele. Eu sei o que estou dizendo. Segundo, eu realmente acho linda a idéia de escrever um texto de presente para uma amiga, mas escreva um texto SEU, jamais faça “colagens” sobre o trabalho de outra pessoa, que isso é desrespeitoso, isso é crime. Imagine que você é um pintor muito talentoso, vejamos, Leonardo Da Vinci, pintando a Monalisa com seu enigmático sorriso. Então chega alguém que resolve dar uma pintura de presente a um amigo, mas acha que a Monalisa ficaria muito mais legal se tivesse um girassol no cabelo e um sorriso mostrando todos os dentes. Então vai lá e adultera. Aproveitando, pinta as unhas da Monalisa de vermelho, manda para a amiga, que imprime vinte mil cópias e espalha por aí dizendo que foi Michelangelo quem pintou. Entende o absurdo?

Não sei se você leu os outros posts, a opinião dos autores que tiveram seus textos roubados ou adulterados, Martha Medeiros, Cris Passinato, Alexandre Inagaki, Patricia Daltro… é extremamente frustrante criar algo, no caso um texto, ter um trabalhão naquilo e depois vê-lo alterado sem sua autorização. Isso não se faz, Camila. Atrapalha o autor, que merece ter o reconhecimento do seu trabalho, atrapalha os leitores, que querem saber de quem é o texto que estão lendo e atrapalha quem altera, que acaba prestando um desserviço, porque faz um texto sem pai nem mãe, que é menos do que o original e menos do que poderia ser se fosse algo inédito. Entendo que você não tenha feito por mal, mas realmente não tem como eu saber de cara quem fez por mal e quem não fez porque existe gente muito maldosa que altera as coisas de propósito, não sei por qual motivo, mas existe, acredite.

Se você realmente admira quem escreveu um texto bonito, então respeite esse autor e mantenha seu texto intacto, porque é a obra dele. Qualquer alteração feita por outra pessoa descaracterizaria a obra, se você gosta de escrever, sou a primeira a te incentivar a praticar, porém tire a inspiração de dentro de você, não altere textos que já existem. Você tem a capacidade de criar algo novo, se quiser. E assinar com seu próprio nome, o que é bem mais bonito, tocante e precioso. Eu não disse que a versão alterada por você é uma praga que destrói civilizações, mas que esse tipo de atitude, de copiar, alterar e colar, ignorando o autor e a versão original é uma praga destruidora de civilizações, porque igora qualquer senso histórico e noção de preservação da cultura, que são coisas necessárias para a manutenção de qualquer civilização que se preze.

Não posso julgar seu texto porque ele não existe. Você alterou o texto de outra pessoa e agora ele não é nem seu, nem de outra pessoa. Ninguém o mandou para mim, ele simplesmente está circulando na internet como se fosse a versão original e ainda assinada por William Shakespeare!!! Primeiro, reafirmo o que já disse anteriormente: esse texto é uma tradução do texto de Veronica Shoffstall, devidamente registrado. Foi escrito quando a autora tinha dezenove anos, em 1971.


Entendo sua boa intenção, acredito que em sua cidade exista uma biblioteca pública e talvez lá você encontre livros de Shakespeare e possa ler a obra original do escritor, o que certamente vai te dar novos parâmetros. Eu queria que você me dissesse qual livro de auto-ajuda Shakespeare já escreveu. Você já leu Hamlet? Já leu Rei Lear? Já leu Macbeth? Otelo? A Megera Domada? O Mercador de Veneza? Nenhum deles é de auto-ajuda, te garanto. Procure ler esses clássicos e conhecerá os traços literários do autor. Esqueça a internet quando se trata de autores clássicos, como você mesma pôde comprovar, na Net muitos Shakespeares são Camilas de Lima e realmente não existe a menor garantia de que o texto que você esteja lendo seja de quem você acredita.

É por isso que criei o blog Autor Desconhecido, para conscientizar pessoas que não escrevem da importância que os textos têm a quem escreve, a importância de manter a autoria correta, a importância de manter o texto intacto. De outra forma, não conheceríamos hoje Shakespeare, por exemplo. Pense um pouco sobre isso, reflita, compreenda. Espero, sinceramente, poder contar com a sua colaboração nessa caminhada. Adoraria poder colocar seu nome naquele texto, por exemplo, mas não posso. O texto não é seu, não é de Veronica, não é de Shakespeare. Sei – e sei mesmo, eu realmente acredito em você – que você não fez com essa intenção, mas alterar textos de outros autores configura crime de plágio, não é bonito, não é legal. Por isso insisto que o melhor que você pode fazer por você, pelos leitores, pelas suas amigas e pela literatura é escrever seus próprios textos, baseados em sua própria vida e nunca mais alterar o texto alheio, ainda que pareça não ter autor. Sempre tem.

Então você vai entender o quanto um autor ama seu próprio texto e o quanto dói vê-lo alterado, mutilado, modificado e atribuído a outra pessoa. Pode parecer bonito esse negócio de “texto escrito com o coração”, mas escrever é trabalho e dá trabalho, respeitar esse trabalho é o mínimo que devemos aos escritores que dia após dia nos brindam com linhas inspiradas e interessantes. Espero que compreenda isso.

Grande abraço

Vanessa Lampert

Ao menos uma entidade que distorce e alonga textos já não é mais tão desconhecida assim :-) E é confortador saber que, ao menos nesse caso, ela não fez de propósito, nem estava mal intencionada, o que me leva a crer que vai refletir sobre o que eu disse. Eu espero.


UPDATE

Betty Vidigal, outra lutadora incansável de nosso ingrato trabalho de formiguinha, alerta para a existência de um site que tem tudo sobre Shakespeare, segundo ela, é praticamente um Google de Shakespeare. Então, para tirar qualquer dúvida, vá atéhttp://www.psrg.cs.usyd.edu.au/~matty/Shakespeare/, digite todas as traduções possíveis de “um dia você aprende que” e não vai encontrar nada. Simplesmente porque não há um mísero registro sério desse texto em nome de Shakespeare. Por que não é dele, obviamente. Como disse Veronica no texto anterior, “This poem has been plagiarized, bastardized, renamed, reworded, redesigned, expanded and reduced.” . Eu, sinceramente, espero que com esse nosso trabalho consigamos devolver ao menos um pouco da dignidade da obra original à sua autora. E espero contar com a compreensão e colaboração de quem visita esta página para isto.

.