A IMPONTUALIDADE DO AMOR

Martha Medeiros rides again

Ok, eu vou fazer um estudo sério para entender por que raios essa mulher tem o poder de se transformar em Luis Fernando Verissimo e Mário Quintana na internet com tanta facilidade? Depois de tantas amostras, é só eu bater o olho em um texto creditado ao Verissimo, ao Jabor, ao Quintana ou ao tal Desconhecido para saber que é dela. Mas esse não foi bolinho… algumas versões estavam tão alteradas, com anexos imensos no final para deixar o texto no estilo “auto-ajuda” que ficou meio difícil identificar o que era original e o que era acrescentado. Em outras o acréscimo era tão grotesco, tão mal escrito, que não foi nada complicado. Agora aprendi: na dúvida, vou direto no Almas Gêmeas, que parece ser a fonte de spammers. Este texto foi publicado em 12 de maio de 1998, lá. Quando um texto pula para a caixa de e-mail de alguém as chances de ele ser mutilado, distorcido e virar outra coisa nada a ver com autoria amputada aumenta exponencialmente. E talvez o botãozinho “envie esta mensagem para um amigo” disponível na ex-coluna dela no Almas Gêmeas seja parcialmente culpado por isso…

A IMPONTUALIDADE DO AMOR
Martha Medeiros

Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.

Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?

Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retrato e começou a gostar de jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.

O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.

O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.

A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir “eu te amo” num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir “eu te amo” numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.

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