Meus secretos amigos

Não é Shakespeare, não é do Desconhecido, não é Vinícius, não é Garth Henrichs (seja lá quem for)

Essa me foi perguntada pela Alice nos comentários do texto anterior. Esse texto foi publicado originalmente pelo cronista gaúcho Paulo Sant’Ana, o verdadeiro autor, na coluna que ele assina no jornal Zero Hora e também consta no livro “O Gênio Idiota” (1992, ed. Mercado Aberto). Sobre a confusão, o próprio jornal Zero Hora, publicou, em 19 de junho de 2002: “O colunista Paulo Sant’Ana recebeu esse e-mail do jornalista Emanuel Mattos no dia de seu aniversário e, para seu espanto, identificou que o texto, assinado por Vinícius de Moraes, é de sua autoria. Surpreso, imediatamente ligou e desfez a confusão. A criação de Sant’Ana já deve ter circulado por muitas caixas de mensagens com a assinatura de Vinícius, sem que ninguém soubesse da troca de autor. Somente, é claro, o próprio Sant’Ana.”

Sendo assim, autoria desvendada, agradeço a colaboração de outras formiguinhas do direito autoral, de quem encontrei os textos prontos que me facilitaram (e muito) o trabalho: o jornalista gaúcho Emilio Pacheco e a escritora Betty Vidigal . Agradecendo também ao meu marido, o escritor e cartunista Davison Lampert, gaúcho, porto-alegrense, que já tinha lido o texto de seu conterrâneo e me confirmou, sem sombra de dúvidas, que o Paulo Sant’Ana era o pai do negócio.



MEUS SECRETOS AMIGOS

Paulo Sant’Ana

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer…

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

——————–

UPDATE

Já tinha lido isso, mas não tinha dado crédito por conta da republicação do texto como o recebi, na Zero Hora, sem explicação do paulo Sant’Ana sobre a última frase: “A gente não faz amigos, reconhece-os”. Recebi o seguinte comentário do Emilio Pacheco:

Só uma observação: a última frase, segundo consta (acho que foi realmente Betty Vidigal quem desvendou isso), é mesmo de Garth Henrichs. “One does not make friends. One recognizes them.” Fui olhar no livro “O Gênio Idiota” e – surpresa! – essa frase não constava no final da crônica. Ela foi acrescentada “a posteriori” na “ciranda” de e-mails. Só que, ao republicar a crônica na Zero Hora para reivindicar sua autoria, Sant’ana deixou a frase a mais, como se constasse do original e fosse também dele.

Então, Emilio, a famigerada frase de Garth Henrichs foi sumariamente cortada do texto postado aqui. A César o que é de César. Se não é de César a gente deleta e credita o resto ao próprio :) E que seja feita a justiça ao pobre Henrichs, que ninguém conhece.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *