Monthly Archive: junho 2007

Ter ou não ter namorado

Outro clássico, enviado pela leitora Niza:

Esse texto foi publicado em 1984 e circula há anos, inclusive em revistas, jornais e antologias, como sendo de Carlos Drummond de Andrade. Muita gente já sabe que é de Artur da Távola, mas em pleno 2007 o encontrei até mesmo creditado ao Verissimo e ao nosso amigo Desconhecido. As alterações que ainda circulam por aí (inclusive transformando a crônica em poesia, colocando as frases em coluna….argh!!!) são apavorantes. Por que fazem isso com textos inocentes? Alguns acréscimos, alguns cortes, algumas deformações…a maioria dos textos alterados suprimiu a ordem “ENLOU-CRESÇA.” Provavelmente, os Alteradores de Textos Anônimos não entenderam o novo termo.

Artur da Távola reclama, em adendo colado ao texto:


“Não sei mais o que fazer! Aviso às editoras que fazem antologias, que de agora em diante irei à Justiça e as processarei por uso indevido de uma crônica de minha autoria, ‘Ter ou não ter namorado’, publicada em 1984 no Livro ‘Amor A Sim Mesmo’, da Editora Nova Fronteira, como se fosse do grande poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade. Algumas editoras, para aproveitarem-se da justa fama de Drummond não se preocupam de examinar com cuidado e tascam nas antologias essa minha crônica, como dele. É a que se segue, com o título que está aí em cima:”


Aí vai o texto original, postado em seu site :

TER OU NÃO TER NAMORADO
Artur da Távola


Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil.
Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira – d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA.

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Navegue

Esse texto foi enviado pela leitora Nancy, tem circulado como sendo uma poesia de Fernando Pessoa. Não é. É de autoria de Silvana Duboc, e não tem absolutamente nada a ver com nada que Pessoa escreveu em toda a sua vida. Ocorre que uma criatura resolveu “completar” o texto com uma frase que creditou a Fernando Pessoa “Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala.
O mais é nada”
e o texto todo foi engolido pelo crédito equivocado. A autora inclusive divulga o número do registro do poema, para que não haja dúvida.

NAVEGUE

Silvana Duboc

Navegue,

descubra tesouros, mas não os tire do fundo do mar,
o lugar deles é lá.


Admire a lua,

sonhe com ela, mas não queira trazê-la para a terra.


Curta o sol,

se deixe acariciar por ele,
mas lembre-se que o seu calor é para todos.


Sonhe com as estrelas,

apenas sonhe, elas só podem brilhar no céu.


Não tente deter o vento,

ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.

Não apare a chuva,

ela quer cair e molhar muitos rostos,
não pode molhar só o seu.

As lágrimas?

Não as seque, elas precisam correr na minha,
na sua, em todas as faces.

O sorriso!

Esse você deve segurar, não deixe-o ir embora, agarre-o!

Quem você ama?

Guarde dentro de um porta-jóias, tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui,
a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda,

se o século vira,
se o milênio é outro, se a idade aumenta;
conserve a vontade de viver,
não se chega à parte alguma sem ela,


Abra todas as janelas

que encontrar, e as portas também.

Persiga um sonho,

mas não deixe ele viver sozinho.

Alimente sua alma

com amor, cure suas feridas com carinho.

Descubra-se todos os dias,

deixe-se levar pelas vontades,
mas não enlouqueça por elas.

Procure,

sempre procure o fim de uma história, seja ela qual for.

Dê um sorriso

para quem esqueceu como se faz isso.

Acelere seus pensamentos,

mas não permita que eles te consumam.

Olhe para o lado,

alguém precisa de você.

Abasteça seu coração de fé,

não a perca nunca.

Mergulhe de cabeça

nos seus desejos, e satisfaça-os.

Agonize de dor

por um amigo,
só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.


Procure os seus caminhos,

mas não magoe ninguém nessa procura.


Arrependa-se,

volte atrás, peça perdão!


Não se acostume

com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.

Alague

seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.

Se achar

que precisa voltar, volte!

Se perceber

que precisa seguir, siga!

Se estiver tudo errado,

comece novamente.

Se estiver tudo certo,

continue.

Se sentir saudades,

mate-a.

Se perder um amor,

não se perca!

Se achá-lo, segure-o!

Caso sinta-se só,

olhe para as estrelas: eu sempre estarei nelas.

Não estão ao seu alcance

mas estarão eternamente brilhando para você! ”



A publicação desta obra foi autorizada pela Autora – Silvana Duboc – e encontra-se devidamente Registrada na Fundação Biblioteca Nacional
Ministério da Cultura – Escritório de Direitos Autorais
Rua da Imprensa 16 – sala 1205 – Centro – Rio de Janeiro
Registro – 309.788
Livro – 564
Folha – 448
Analisado por – Pedro José Guilherme de Aragão
Assinado por – Célia Ribeiro Zaher- Diretora do Centro de Processos Técnicos

Aviso

Andei afastada nos últimos meses não apenas deste blog, mas da internet, como um todo. Tenho feito as pesquisas de forma bem menos intensa, e recebendo vários emails de leitores pedindo para que eu desvende algumas autorias ou enviando os textos já com autoria esclarecida (mesmo nesses casos, eu sempre checo as informações). Agradeço imensamente a ajuda que vocês me dão através desses emails, pois como já comentei aqui, não recebo mais textos encaminhados por amigos (eles cansaram de ouvir…risos…), então é uma boa forma de saber o que anda circulando por aí.

Peço desculpas a quem ainda não recebeu resposta, e desculpas antecipadas, pois responderei cara-de-paumente até aos que estão com incrível atraso. De agora em diante conseguirei voltar a postar aqui com certa frequência, material é o que não falta. Peço que tenham paciência e agradeço a colaboração e o contato dos leitores, os comentários deixados aqui e os emails que me enviam diariamente. Espero conseguir reunir aqui o maior número de textos com paternidade devidamente reconhecida, tirando os louros do inexistente Desconhecido e os entregando a quem tem direito, realmente. O trabalho é árduo e feito meticulosamente, demoradamente, com o perfeccionismo suicida que me é peculiar. Pelo menos vocês têm a certeza de que a autoria que estiver exposta aqui foi suficientemente escarafunchada, até chegar ao resultado final. Continuem a me mandar textos, ainda que demore horrores, farei a devida investigação.

Até logo!