Monthly Archive: novembro 2005

Clonagem de textos

No dia 28 de maio de 2001, em sua extinta coluna no Almas Gêmeas, Martha Medeiros escreveu sobre o assunto (ou parte dele):

CLONAGEM DE TEXTOS

Martha Medeiros

A internet aproxima amigos e divulga informação: só é nociva à medida que as pessoas são, elas próprias, nocivas. Infelizmente, uma destas nocividades tem se manifestado em forma de desrespeito ao direito autoral.

Circula pela internet um texto meu sobre saudade, chamado A dor que dói mais, publicada aqui no Almas Gêmeas e no meu livro Trem-Bala, assinado por Miguel Falabella, inclusive com uns enxertos vulgares, licença-poética que o “co-autor”, seja quem for, se permitiu. Também andou circulando um texto meu chamado As razões que o amor desconhece, desta vez creditado a Roberto Freire. No Dia Internacional da Mulher, a apresentadora Olga Bongiovanni, da TV Bandeirantes, gentilmente leu no ar o meu texto O Mulherão, e em seguida o disponibilizou no site do programa, onde pude constatar alguns parágrafos adicionados por algum outro co-autor ávido por fazer sua singela contribuição. A produção corrigiu o erro assim que foi avisada. Quem controla isso?

Imagino que essa apropriação indevida venha lesando diversos outros cronistas, que por dever de ofício produzem textos diariamente, tornando-se inviável o registro de cada um deles. A fiscalização fica por conta do leitor, que, conhecendo o estilo do escritor, pode detectar sua autenticidade.

Não chega a ser um crime hediondo e também não é novo. Credita-se a Borges um texto sobre como ele viveria se pudesse nascer de novo, que os estudiosos da sua obra negam a autoria, e Garcia Marquez, pouco tempo atrás, teve que desmentir ser ele o autor de um manifesto meloso que andou circulando entre os internautas. Luis Fernando Verissimo também andou negando a autoria de um texto sobre drogas, que assinaram como se fosse dele. Todas as pessoas que escrevem estão e sempre estiveram vulneráveis a esses enganos, involuntários ou não, mas não há dúvida de que a internet, pela facilidade e rapidez de divulgação de e-mails, massificou a rapinagem.

Perde com isso, primeiramente, o autor, que vive de seu trabalho e que fica à mercê de ter suas palavras e pensamentos transferidos para outro nome ou adulterados: não são poucos os que acrescentam sua própria idéia ao texto e mantém o nome do autor verdadeiro, pouco se importando em corromper a legitimidade da obra. E perde também o leitor, que é enganado na sua crença e que poderá vir a passar por desinformado. Viva a internet, mas que os gatunos virtuais tratem de produzir eles mesmos suas próprias verdades.

Pedido de amigo

Não é por nada, não, mas acho que esse pessoal que acredita nos pseudo-textos de Verissimo nunca leu UM mísero livro do cara. O texto abaixo não é estilo dele, assim como os da Martha Medeiros não são, muito menos o “Quase” da Sarah Westphal é. O texto abaixo não é do Luis Fernando Verissimo, não é do Autor Desconhecido, foi publicado no dia 1/11/2004 nesta página da Revista O Caixote , é um conto de autoria de J. Miguel. Antes do texto, uma pequena Bio (retirada do site) para apresentar o autor:
“J. Miguel – É carioca, tem 39 anos de idade e mora no Rio. Estudou no Colégio Pedro II e depois fez Física na Faculdade de Humanidades Pedro II, em São Cristóvão, também no Rio. Lecionou por um período, mas deixou as salas de aula para trabalhar na Petrobras, onde passou dez anos, até 1998, quando resolveu se dedicar a uma empresa de equipamentos de informática, ramo de atividade com o qual trabalha até o momento.
Editou apenas um livro, lançado em maio de 2004, com o título Contos de vida ¿ e vida após a vida, cujo conteúdo reúne cinco contos relacionando os conhecimentos científicos e a existência de uma vida após a morte.
Vem escrevendo, simultaneamente, um romance baseado na história de Antônio Conselheiro e Canudos; um livro de ficção futurística, a respeito de uma raça de humanóides criada geneticamente para suportar o fim da camada de ozônio e uma guerra entre essa raça e a humanidade; um livro científico a respeito das teorias de formação do Universo, inclusive a semimorta atual, do Big Bang e sua provável substituta, a Teoria das Supercordas e Multiversos (que particularmente pensa tratar-se de uma manobra, apenas para não dar fim à Teoria do Big Bang ¿ o que enterraria muitas mentes soberbas da atualidade) e, por fim, diversos contos curtos, alguns de humor, outros metafísicos.”
Pedido de Amigo
J.Miguel
Vinte anos. Ah, os vinte anos. De casados, claro!
Casamos novos. Ela com 19 e eu com 20 anos de idade. Lua-de-mel, viagens, mobílias na casa alugada, prestações da casa própria e o primeiro bebê. Anos oitenta e a moda era ter uma filmadora do Paraguai. Sempre tinha um vizinho ou amigo contrabandista disposto a trazer aquela muambazinha por um preço módico.
Ela tinha vergonha, mas eu desejava eternizar aquele momento. Irrompi na sala de parto com a câmera no ombro e chorei enquanto filmava o parto do meu primeiro filho. Todo mundo que chegava lá em casa era obrigado a assistir o filme. Perdi a conta das cópias que fiz do parto e distribuí entre amigos, parentes e parentes dos amigos. Meu filho e minha esposa eram o meu orgulho.
Três anos depois, novo parto, nova filmagem, nova crise de choro. Como ela categoricamente disse que não queria que eu filmasse, invadi a sala de parto mais uma vez com a câmera ao ombro. As pessoas que me conhecem sabem que havia apenas amor de pai e marido naquele ato. O fato de fazer diversas cópias da fita era apenas uma demonstração de meu orgulho. Nada que se comparasse ao fato de ela, essa semana, invadir a sala do meu proctologista, câmera ao ombro, filmando o meu exame de próstata. Eu lá, com as pernas naquelas malditas braçadeiras, o cara com um dedo (ele jura que era só um!) quase na minha garganta e a mulher gritando:
– Ah! Doutoor! Que maravilha! Vou fazer duas mil cópias dessa fita! Semana que vem estou enviando uma para o senhor!
Meus olhos saindo da órbita a fuzilaram, mas a dor era tanta que não conseguia falar. O miserável do médico girou o dedo e eu vi o teto a dois centímetros do meu nariz. A mulher continuou a gritar, como um diretor de cinema:
– Isso, doutor! Agora gire de novo, mais devagar. Vou dar um close agora…
Alcancei um sapato na mesa e joguei na maldita.
Agora, estou escrevendo este e-mail, pedindo aos amigos que receberem uma cópia do filme, que o enviem de volta para mim. Eu pago o reembolso.
Não é por nada, não, mas acho que esse pessoal que acredita nos pseudos-textos de Verissimo nunca leu UM mísero livro do cara. O texto abaixo não é estilo dele, assim como os da Martha Medeiros não são, muito menos o “Quase” da Sarah Westphal é. O texto abaixo não é do Luis Fernando Verissimo, não é do Autor Desconhecido, foi publicado no dia 1/11/2004 nesta página da Revista O Caixote , é um conto de autoria de J. Miguel. Antes do texto, uma pequena Bio (retirada do site) para apresentar o autor:

“J. Miguel – É carioca, tem 39 anos de idade e mora no Rio. Estudou no Colégio Pedro II e depois fez Física na Faculdade de Humanidades Pedro II, em São Cristóvão, também no Rio. Lecionou por um período, mas deixou as salas de aula para trabalhar na Petrobras, onde passou dez anos, até 1998, quando resolveu se dedicar a uma empresa de equipamentos de informática, ramo de atividade com o qual trabalha até o momento.

Editou apenas um livro, lançado em maio de 2004, com o título Contos de vida ¿ e vida após a vida, cujo conteúdo reúne cinco contos relacionando os conhecimentos científicos e a existência de uma vida após a morte.

Vem escrevendo, simultaneamente, um romance baseado na história de Antônio Conselheiro e Canudos; um livro de ficção futurística, a respeito de uma raça de humanóides criada geneticamente para suportar o fim da camada de ozônio e uma guerra entre essa raça e a humanidade; um livro científico a respeito das teorias de formação do Universo, inclusive a semimorta atual, do Big Bang e sua provável substituta, a Teoria das Supercordas e Multiversos (que particularmente pensa tratar-se de uma manobra, apenas para não dar fim à Teoria do Big Bang ¿ o que enterraria muitas mentes soberbas da atualidade) e, por fim, diversos contos curtos, alguns de humor, outros metafísicos.”


Pedido de Amigo
J.Miguel
Vinte anos. Ah, os vinte anos. De casados, claro!

Casamos novos. Ela com 19 e eu com 20 anos de idade. Lua-de-mel, viagens, mobílias na casa alugada, prestações da casa própria e o primeiro bebê. Anos oitenta e a moda era ter uma filmadora do Paraguai. Sempre tinha um vizinho ou amigo contrabandista disposto a trazer aquela muambazinha por um preço módico.

Ela tinha vergonha, mas eu desejava eternizar aquele momento. Irrompi na sala de parto com a câmera no ombro e chorei enquanto filmava o parto do meu primeiro filho. Todo mundo que chegava lá em casa era obrigado a assistir o filme. Perdi a conta das cópias que fiz do parto e distribuí entre amigos, parentes e parentes dos amigos. Meu filho e minha esposa eram o meu orgulho.

Três anos depois, novo parto, nova filmagem, nova crise de choro. Como ela categoricamente disse que não queria que eu filmasse, invadi a sala de parto mais uma vez com a câmera ao ombro. As pessoas que me conhecem sabem que havia apenas amor de pai e marido naquele ato. O fato de fazer diversas cópias da fita era apenas uma demonstração de meu orgulho. Nada que se comparasse ao fato de ela, essa semana, invadir a sala do meu proctologista, câmera ao ombro, filmando o meu exame de próstata. Eu lá, com as pernas naquelas malditas braçadeiras, o cara com um dedo (ele jura que era só um!) quase na minha garganta e a mulher gritando:

– Ah! Doutoor! Que maravilha! Vou fazer duas mil cópias dessa fita! Semana que vem estou enviando uma para o senhor!

Meus olhos saindo da órbita a fuzilaram, mas a dor era tanta que não conseguia falar. O miserável do médico girou o dedo e eu vi o teto a dois centímetros do meu nariz. A mulher continuou a gritar, como um diretor de cinema:

– Isso, doutor! Agora gire de novo, mais devagar. Vou dar um close agora…

Alcancei um sapato na mesa e joguei na maldita.

Agora, estou escrevendo este e-mail, pedindo aos amigos que receberem uma cópia do filme, que o enviem de volta para mim. Eu pago o reembolso.

Depois de um tempo (Aprender)


Texto-Frankenstein

Circula na internet um texto intitulado “Aprender”, creditado a William Shakespeare. Colo abaixo minha resposta ao e-mail de um leitor que queria confirmar se o texto era ou não de Shakespeare:

Olha, existe uma entidade desconhecida que distorce e alonga textos de autores pouco conhecidos e cola o nome de escritores mais conhecidos, para dar credibilidade. O texto que você me enviou é largamente atribuído a Shakespeare, mas você deve ter estranhado o tom “auto-ajúdico” quase adolescente da mensagem e algo lá dentro gritou: “cara, isso não pode ser Shakespeare!”. Você tem razão. É uma coletânea. Ou um “Texto-Frankenstein”, como costumo chamar, cuja base é um poema de Esse é um poema de Veronica Shoffstall (“After a While”, ou “Depois de um Tempo”), de 1971. Também conhecido por “Comes the Dawn”.

Boa lembrança, vou adicionar este texto ao catálogo do Autor Desconhecido. Valeu!

Abaixo vai o poema que originou o texto-Frank, para você conferir.


After a while

Veronica Shoffstall

After a while you learn
the subtle difference between
holding a hand and chaining a soul
and you learn
that love doesn’t mean leaning
and company doesn’t always mean security.
And you begin to learn
that kisses aren’t contracts
and presents aren’t promises
and you begin to accept your defeats
with your head up and your eyes ahead
with the grace of woman, not the grief of a child
and you learn
to build all your roads on today
because tomorrow’s ground is
too uncertain for plans
and futures have a way of falling down
in mid-flight.
After a while you learn
that even sunshine burns
if you get too much
so you plant your own garden
and decorate your own soul
instead of waiting for someone
to bring you flowers.
And you learn that you really can endure
you really are strong
you really do have worth
and you learn
and you learn
with every goodbye, you learn.


A verdadeira tradução:

Depois de um tempo

Veronica Shoffstall

Depois de um tempo você aprende
a sutil diferença entre
segurar uma mão e acorrentar uma alma
e você aprende
que amar não significa apoiar-se
e companhia não quer sempre dizer segurança
e você começa a aprender
que beijos não são contratos
e presentes não são promessas
e você começa a aceitar suas derrotas
com sua cabeça erguida e seus olhos adiante
com a graça de mulher, não a tristeza de uma ciança
e você aprende
a construir todas as estradas hoje
porque o terreno de amanhã é
demasiado incerto para planos
e futuros têm o hábito de cair
no meio do vôo
Depois de um tempo você aprende
que até mesmo a luz do sol queima
se você a tiver demais
então você planta seu próprio jardim
e enfeita sua própria alma
ao invés de esperar que alguém lhe traga flores
E você aprende que você realmente pode resistir
você realmente é forte
você realmente tem valor
e você aprende
e você aprende
com cada adeus, você aprende.




E uma das versões do texto- Frankenstein:

Aprender

Depois de algum tempo você aprende a diferença,
A sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E você aprende que amar não significa apoiar-se,
E que companhia nem sempre significa segurança.
E começa a aprender que beijos não são contratos
E presentes não são promessas.
E começa a aceitar suas derrotas
Com a cabeça erguida e olhos adiante,
Com a graça de um adulto
E não com a tristeza de uma criança.
E aprende a construir todas as suas estradas no hoje,
Porque o terreno do amanhã
É incerto demais para os planos,
E o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Depois de um tempo você aprende
Que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.
E aprende que não importa o quanto você se importe,
Algumas pessoas simplesmente não se importam…
E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa,
Ela vai feri-lo de vez em quando E você precisa perdoá-la por isso.
Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobre que se leva anos para se construir confiança
E apenas segundos para destruí-la,
E que você pode fazer coisas em um instante,
Das quais se arrependerá pelo resto da vida.
Aprende que verdadeiras amizades
Continuam a crescer mesmo a longas distâncias.
E o que importa não é o que você tem na vida,
Mas quem você tem na vida.
E que bons amigos são a família
Que nos permitiram escolher.
Aprende que não temos que mudar de amigos
Se compreendemos que os amigos mudam,
Percebe que seu melhor amigo e você
Podem fazer qualquer coisa, ou nada,
E terem bons momentos juntos.
Descobre que as pessoas
Com quem você mais se importa na vida
São tomadas de você muito depressa,
Por isso sempre devemos deixar
As pessoas que amamos com palavras amorosas,
Pode ser a última vez que as vejamos.
Aprende que as circunstâncias e os ambientes
Têm influência sobre nós,
Mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começa a aprender Que não se deve comparar com os outros,
Mas com o melhor que pode ser.
Descobre que se leva muito tempo
Para se tornar a pessoa que quer ser,
E que o tempo é curto. Aprende que não importa aonde já chegou,
Mas onde está indo.
Mas se você não sabe para onde está indo,
Qualquer lugar serve.
Aprende que, ou você controla seus atos
Ou eles o controlarão,
E que ser flexível não significa
Ser fraco ou não ter personalidade,
Pois não importa quão delicada e frágil
Seja um situação, Sempre existem dois lados.
Aprende que heróis são pessoas
Que fizeram o que era necessário fazer,
Enfrentando as conseqüências.
Aprende que paciência requer muita prática.
Descobre que algumas vezes
A pessoas que você espera que o chute quando você cai
É uma das poucas que o ajudam a levantar-se.
Aprende que maturidade tem mais a ver
Com os tipos de experiência que se teve
E o que você aprendeu com elas
Do que com quantos aniversários você já celebrou.
Aprende que há mais dos seus pais em você
Do que você supunha.
Aprende que nunca se deve dizer a uma criança
Que sonhos são bobagens,
Poucas coisas são tão humilhantes
E seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprende que quando está com raiva
Tem o direito de estar com raiva,
Mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobre que só porque alguém não o ama
Do jeito que você quer que ame,
Não significa que esse alguém
Não o ame com tudo o que pode,
Pois existem pessoas que nos amam,
Mas simplesmente não sabem
Como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente
Ser perdoado por alguém,
Algumas vezes você tem que aprender
A perdoar-se a si mesmo.
Aprende que com a mesma severidade com que julga,
Você será em algum momento condenado.
Aprende que não importa
Em quantos pedaços seu coração foi partido,
Mundo não pára para que você o conserte.
Aprende que o tempo não é algo
Que possa voltar para trás,
Portanto, plante seu jardim e decore sua alma,
Ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.
E você aprende que realmente pode suportar…
Que realmente é forte,
E que pode ir muito mais longe
Depois de pensar que não se pode mais.
E que realmente a vida tem valor
E que você tem valor diante da vida!
Nossa dádivas são traidoras
E nos fazem perder
O bem que poderíamos conquistar,
Se não fosse o medo de tentar
——-

URGH!!!!!!!

Isso é, definitivamente, uma praga. Daquelas que destroem civilizações… será que um dia conseguiremos acabar com essa desgraça? Por favor, não repassem esse texto-Frank, alterado. Se quiserem repassar ou publicar, use o original ou a tradução do original, creditada à Veronica Shoffstall.